quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Outra Margem do Rio




Compartilho aqui uma mensagem que li no mural do Instituto Abrace (www.institutoabrace.org.br), de autoria desconhecida e que registra tão bem o que sentimos quando perdemos um filho querido, uma pessoa amada...


Eu já estive do Lado de Lá...

Já fiz parte do grande número de famílias que moram na outra margem deste Rio, belo e misterioso, que é o trilho que percorremos neste mundo.

São pais, mães e filhos, que têm a felicidade de poderem se abraçar todos os dias, de partilharem as suas emoções e os seus sonhos.

Naquele tempo eu vivia com a tranquilidade de pessoa adulta, pouco dada ao pessimismo e possuidora da maturidade própria para enfrentar e ultrapassar os obstáculos que apareciam pelo caminho.

Quando ouvia falar de pais a quem a morte tinha roubado um filho, eu sentia um grande pesar, ficava tristemente impressionada e tornava-me solidária com a sua dor. Ao meu jeito, tentava levar-lhes algum conforto.

Era sensível à sua mágoa, era amiga, enfim, acreditava que compreendia e conseguia consolar.

Mas, depois de algum tempo, voltava à normalidade dos meus dias, às solicitações que a minha vida me impunha e, mesmo sem me aperceber, ia aos poucos ficando alheia da tragédia desses pais. Talvez pensando que respeitava o silêncio da sua dor ou achando que o tempo, ao passar, poderia fazer mais por eles do que eu. Pressentia até que não queriam ser perturbados e que impunham, mesmo, um afastamento.

Mas chegou o dia em que a minha vida mudou.

O MEU filho morreu.

Passei, então, para este Lado. Para a margem do Rio onde vive uma multidão de pais e mães, feridos, destroçados, com corações pra sempre mutilados.

Casas onde há um lugar vazio, onde se chora a partida, sem retorno, de um filho querido...

Inconsolável, achava que nada mais poderia me aliviar. Sentia que muitas pessoas se afastavam, fartas das minhas lágrimas e do meu sofrimento. As palavras que me eram dirigidas me feriam ainda mais e não tinham qualquer sentido, não conseguiam me consolar.

Cansada de sofrer, comecei por construir barreiras protetoras que me defendessem. Não queria mais sofrimento, não queria mais ser magoada e sabia que era difícil que alguém entendesse a luta que se travava no meu íntimo, no meu coração, na minha alma...

A morte do meu filho projetou-me para um poço escuro e tornei-me distante, inacessível, fechada para o mundo...

Achava que amigos, conhecidos, colegas e até alguns familiares, se distanciavam de mim.

Não falavam do meu filho, e percebia que havia um certo embaraço quando nos cruzávamos.

A cruz era minha e eu via os dias a amanhecer, uns atrás dos outros, sem que o meu tormento se atenuasse. Dias, semanas, meses passavam e ninguém me compreendia.

Mas algo foi se operando em mim e se ajeitando aos poucos em meu coração.

À medida que comecei a aceitar a minha perda, que comecei a dar espaço a mim própria para chorar e me libertar da culpa, da revolta e da angústia que me sufocava...

Repensei a minha vida e percebi que a análise que passei a fazer da morte... sobretudo da morte de um filho -, era bem diferente daquela que eu teria feito quando vivia na Outra Margem do Rio, quando desconhecia totalmente a profundidade e dimensão desta dor.

Compreendi que só quando uma parte de nós morre, é que nos sentimos almas gêmeas de outros pais a quem aconteceu o mesmo.

Antes, eu também não tinha capacidade para compreender e ficar ao lado, infinitamente, daqueles a quem a morte tinha mutilado.

Hoje, já vejo com clareza que o abandono que senti por parte de pessoas que se movimentavam no meu mundo, só teve como causa o mistério que a morte encerra e o quanto é doloroso falar dela.

E, quando se trata de um filho, apenas quem está muito chegado a nós ou alguém que já entrou na mesma estrada de luto, pode nos compreender verdadeiramente. Isto é humano. Hoje entendo... Hoje compreendo que não era insensibilidade das pessoas...

Nós, os que vivemos hoje deste Lado, não podemos nos esquecer que já estivemos antes na Outra Margem. E como agíamos naquele tempo com os Outros a quem tinha morrido um filho? Talvez da mesma forma que hoje agem conosco.

Agora sabemos qual o modo como poderíamos ter sido ajudados. Quais as palavras que não queríamos ter ouvido e como desejávamos que nos deixassem falar desse nosso Ser amado, que a morte tão cedo ceifou.

Queríamos, desesperadamente, que nos escutassem.

Por isso, hoje, eu e todos os pais, meus companheiros de luto, sabemos como chegar aos que vivem tranqüilamente na Outra Margem.

Assim, não nos magoemos ainda mais... Se eles não sabem como se dirigir a nós, se não sabem as palavras certas, se não entendem nosso comportamento... lembremos que nós, um dia, também já estivemos do Lado de Lá... e também desconhecíamos a magnitude desta dor.

Um comentário:

  1. Oi Tân, muito realista esse texto... Isso também aconteceu comigo, antes de saber o que era ter um filho, ou mesmo sentir a dor de perdê-lo, vi minha prima passar por essa dor, e sempre me senti constrangida, sem saber o que falar, não conseguia ser natural ao seu lado, mas era medo de falar algo impróprio. Inclusive achava que deveria evitar falar de seu filho. Um dia ela falou que fazia muito bem falar dele, e que se sentia mal pelas pessoas não falarem dele, como se ele não houvesse existido.
    Hoje sei como ela se sentia. Me sinto triste quando não comentam do Diogo. Mas me coloco agora no lugar dessas pessoas que não sabem como agir diante de algo tão delicado.

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