quarta-feira, 9 de março de 2011

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é



Uma das coisas mais difíceis em home care é estar preparado para emergências. Enquanto seu familiar está no hospital, dificilmente nos envolvemos nas situações de emergência, dificilmente temos que tomar alguma decisão que envolva uma situação de risco.

Acredito que esse fator impede muitas pessoas de tomarem a decisão de trazer seu familiar para casa. Por mais que a empresa de home care ofereça profissionais capacitados, serviços de ambulância, ainda assim, na hora da emergência, em muitas ocasiões, as pessoas presentes na casa são apenas você e a auxiliar de enfermagem. Até chegar o socorro, tudo depende de vocês duas.

E é claro que ninguém está realmente preparado para ver seu familiar passando mal e ainda ter sangue frio para tomar decisões e providências para socorrê-lo.  Ainda mais quando se trata de um filho. É claro que dá medo e muita gente sente que não conseguiria lidar com isso. Conheci algumas crianças cujos pais tomaram a decisão de não trazê-las para casa, mesmo tendo direito ao home care. Meu marido sempre diz que não devemos julgá-los, pois quem é que sabe o que vai no coração de cada um? Os medo que cada um tem que enfrentar?

Presenciar um filho tendo uma parada diante de seus olhos, sofrendo durante horas convulsões que não cessam, mesmo sob efeito de medicações fortíssimas, e o pior de tudo, sentindo-se responsável por tudo isso!

Não é fácil conviver com a doença de um familiar, ainda mais quando ele é muito amado, temendo a todo instante perdê-lo, vê-lo desaparecer sob o efeito das medicações, das infecções, do progresso da doença que o acometeu. Ser testemunha de seu lento declínio, conciente de que, a respeito disso, não há muito o que fazer. Apenas estar ao seu lado, segurar sua mão, ouvir seu silêncio. Em muitas ocasiões eu senti que era apenas isso o que eu fazia: segurar a mão do Pedro, desde o dia em que ele nasceu, minúsculo dentro da isolete com uma musculatura tão flácida que mal podíamos segurá-lo, até o dia em que ele morreu e seu corpo já estava tão fragilizado que não era mais possível nem dar um banho sem correr um enorme risco de fraturá-lo inteirinho. 

Ás vezes, ainda acho que estou segurando a mão dele.

Quantas vezes, não quisemos fugir? Não desejamos que tudo desaparecesse, por mais que amássemos nossos filhos, nossos pais, avôs, tios? Quantas vezes não desejamos aproximar-se da janela e gritar que não aguentávamos mais?

Afinal, somos apenas seres humanos, imperfeitos até o fim.

E é por isso que fica difícil julgar os outros. Não é fácil deixar um filho no hospital, quem é que vai saber a crise na consciência desses pais? Sempre digo que o nosso pior juiz somos nós mesmos, conhecemos cada falha, cada mancada, cada ato de egoísmo nosso e de nossa consciência não há como fugir.

Como dizia o poeta: Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

2 comentários:

  1. Nossa Tân, que verdade assustadora, não? Me identifico com cada palavra, inclusive quando o Didi era internado eu via 2 lados bons, primeiro o fato de ele estar num lugar com uma infra estrutura alí a seu alcance, pra qualquer ocorrência, e o outro lado bom confesso que era bem egoista... pensava: que bom, meu filhote aqui é somente meu, pois ficava 24 horas com ele, dando toda a atenção e carinho, sem dividí-lo com o resto da casa... dava banho, escovava o dentinho, dava a papinha, até a troca de fralda era um momento maravilhoso.

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  2. Sinceramente verdadeiro, mas só agora eu posso entender melhor o significado de tudo isso.

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