Quando o Pedro ainda era vivo, a empresa que prestava o serviço de atendimento domiciliar (home Care) em nossa casa era a Home Doctor. Na época, eles tinham um programa muito legal que eram reuniões mensais com as famílias de pacientes pediátricos em ventilação mecânica. Foi a partir desa iniciativa deles que iniciamos contatos com outros pais e mães que passavam pela mesma dificuldade que a gente. Talvez eles não saibam como foram importantes para a gente aquelas reuniões porque depois eles suspenderam esse programa.
Cada reunião tinha um tema e um profissional convidado. Éramos convidados a falar e a participar e no final tinha uma espécie de dinâmica. Acredito que era um caminho de duas vias, assim como aprendíamos conhecimentos novos (nunca vou me esquecer da palestra da nutricionista que disse que laranja lima é obstipante!), a equipe deles conhecia melhor nossos medos e inseguranças e podia compreender melhor como é difícil conviver com o home care. Talvez pudessem usar melhor esse conhecimento para melhorar o atendimento, pelo menos era nisso que eu acreditava!
Numa dessas reuniões conhecemos um casal muito bacana, pais de uma garotinha linda portadora de uma síndrome bastante grave. Certo dia, o pai deu um depoimento que jamais esqueci. Era ele quem dava banho na filha e disse que havia dias em que estava cansado ou com muito trabalho por fazer (ele trabalhava em casa) e pensava em deixar o banho para a auxiliar de enfermagem. Então ele lembrava que amanhã talvez a filha não estivesse em casa, quem sabe o que pode acontecer amanhã? Principalmente para nossos filhos, cujo futuro é incerto... E ele dava o banho e curtia aquele momento, que era único e jamais se repetiria. Ás vezes, ele já estava na cama, lendo, e de repente ficava com sono, mas se lembrava que ainda não havia dado boa-noite para a filha. Ficava com preguiça de descer as escadas (o quartinho dela ficava no andar de baixo), mas então se lembrava que amanhã talvez não houvesse oportunidade para dar boa-noite e ele se arrependeria para sempre de não ter feito esse gesto aparentemente tão sem importância.
Ele seguiu essa rotina até o fim. Deu banho na filha até o último dia e deu-lhe um beijo de boa noite até a última noite.
Nunca me esqueci dessas palavras, principalmente porque foram ditas por um pai. Confesso que, ás vezes, também me sentia como ele e não dava boa-noite para o Pedro, com preguiça de me levantar da cama, o sono já batendo na porta... Mas depois desse dia, segui à risca essa rotina. Mesmo quando havia dois home care em casa e havia dois banhos para dar, o do Pedro e da Raquel e nem sei qual era mais trabalhoso! O estado do Pedro já era tão crítico que havia o risco de fratura só com mudança de decúbito. Mesmo assim eu fazia questão de dar o banho, porque sei que me arrependeria depois por não ter estado ao seu lado quando ele mais precisou.
Bom, é como diz a música do Legião Urbana:
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Pois se você parar para pensar, na verdade não há.
Principalmente em se tratando de nossos filhos. Dar o último banho, dar o último beijo de boa-noite, dar o último adeus. Mas isso vale para todas as pessoas: resolver todas as pendências, todos os desentendimentos, todas as mágoas, porque depois não haverá mais tempo e só vai sobrar o arrependimento.
Pode parecer estranho, mas a Morte (pois é disso que estamos falando) é capaz de oferecer as mais belas lições.

Comigo também era assim, eu já grávida da Giovana e tinha enjoo até de noite, mas mesmo indisposta fazia questão de ficar pelo menos uma hora com o Diogo no colo, e como me fazia bem, ele sempre me passava muita paz e muito amor. Com certeza a morte e situações difíceis ensinam o que é viver... dar valor as coisas mais simples...
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