Na semana passada, a Raquel pegou uma pneumonia. Ficou muito abatida, os parâmetros do respirador tiveram que ser aumentados, ela ficou dependente de oxigênio. Apesar de estar tomando antibiótico, não apresentou melhoras.
A cada dia que passava, eu via seu estado de saúde piorar. Ela não sorria mais, dormia quase todo o tempo. Na quarta-feira vieram coletar amostras de sangue para fazer exames e a atendente não conseguia aspirar o sangue, apesar de a agulha estar perfeitamente encaixada na veia. Sempre que isso acontecia com o irmão da Raquel, o Pedro, eu sabia que seu organismo estava muito rebaixado, sem condições de reagir à infecção. A atendente picou a Raquel três vezes para coletar todos os tubos dos exames e minha Pequenina não reagiu a nenhuma das picadas. Parecia em coma, o rosto muito pálido, os lábios descorados, a temperatura muito baixa.
Nesse instante eu soube que ela iria para o hospital. Fiquei com muito medo. É difícil explicar isso, não é racional, mas depois da morte do Pedro, eu relaciono internação em hospital com morte. Sempre que a pediatra fala em internar, eu acho que a Raquel vai morrer. Sei que o hospital tem mais recursos, que é uma alternativa viável para melhorar seu estado de saúde, mas meu coração não acredita.
Coração de mãe é assim, ás vezes age, pensa, sente irracionalmente...
Então, quando chegou a ambulância, a Raquel fez uma coisa inacreditável!
Abriu os olhos, se espreguiçou toda e sorriu! Como se nada estivesse acontecendo, como se ela não estivesse dormindo há quase 5 dias sem esboçar qualquer reação!
E a partir desse momento ela começou a reagir, voltou a bater os bracinhos, muito irritada com a gritaria das crianças do PS, a observar tudo com seus olhos arregalados, meio assustada com o local estranho onde se encontrava e a sorrir com as brincadeiras bobas que fazemos com ela (aqueles ruídos bobos que fazemos para crianças bem pequenas e que temos um pouco de vergonha quando alguém fica observando...).
O resultado foi que ficamos apenas algumas horas no PS e depois voltamos para casa e a Raquel passou quase dois dias inteiros rindo sem parar. Ria até durante a aspiração traqueal!
A vida com ela é uma montanha-russa. Num mesmo dia você desce ao fundo do poço e depois sobe até a mais alta montanha e fica bem pertinho do céu.
Nesse dia, lembrei-me da frase latina CARPE DIEM que significa CURTA O DIA, APROVEITE O DIA. Não dá para pensar no amanhã. Não sei se amanhã estarei com ela. Hoje eu posso tocá-la, beijá-la, maravilhar-me com seu sorriso, com seu olhar mudo a me procurar. Ontem já passou e amanhã ainda não existe.
E eu me pego pensando nisso até mesmo quando estou lavando um prato de louça. Eu me vejo me concentrando nessa tarefa, sem pensar no que vou fazer depois, ou amanhã.
Sei que é por medo de pensar no amanhã, quando possivelmente talvez ela não esteja comigo, assim como o Pedro não está mais. Mas não é uma maneira tão ruim de viver!
Não é uma filosofia de vida, nem uma lição de vida. É só..... CARPE DIEM!

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