segunda-feira, 14 de março de 2011

Tente de novo!



Ao ler o texto da Ale, lembrei-me de um fato que ocorreu quando minha Raquel estava internada na UTI neonatal. Ela tinha um mês de idade, parecia um ratinho na isolete. Na hora da visita, nós, mães, precisávamos lavar as mãos e vestir um avental que ficava num armário na entrada do berçário. 

Aquele era um dia especial porque eu havia trazido minhas filhas maiores e minha mãe para visitar a Raquel. Mas não houve avental para todas as mães e eu fiquei sem avental. Como já estava acostumada à rotina de muitas UTI´S por causa de minha experiência com o Pedro, não me importei e entrei na UTI mesmo assim. Em outras UTI´S não precisava vestir avental, sabia que o mais importante era uma boa lavagem de mãos ao entrar e sair da UTI, antes e depois de qualquer procedimento. Quando me aproximei da isolete da Raquel, uma fisioterapeuta me abordou com palavras ríspidas:

- O que você está fazendo?!
- Vou ver minha filha...
- Você não sabe que precisa vestir o avental? Não se aproxime dela! - continuou gritando.
- Mas não tinha avental e... - mas ela não me deixou continuar e mandou-me embora, dizendo que eu só poderia voltar quando trouxessem novos aventais.

Jamais me esqueço dessa cena porque foram palavras-limites para mim. Eu estava cansada, insegura, com medo que a Raquel não resistisse à solidão (eu não ficava com ela todos os dias, apenas algumas horas durante a semana, pois ainda havia o Pedro em casa, com uma infecção que piorava a cada dia, ainda tinha minhas duas meninas, precisava fazer comida, lavar roupa, enfim, cuidar de casa...), com medo de que eu não conseguisse levá-la para casa pois ela não tinha convênio (nasceu num hospital público), meu marido estava desempregado e os custos para mantê-la em casa seriam altíssimos frente a todas as necessidades dela.

Era um dia especial para mim, eu gostaria muito que as irmãs da Raquel tivessem conseguido vê-la, tocá-la, que a Raquel sentisse que era amada e desejada em casa. Contudo, a fisioterapeuta não deixou-as entrar, mesmo diante de meus argumentos de que eu não sabia se a Raquel resistiria, se eu conseguiria levá-la para casa... E se ela jamais conhecesse as irmãs?!

Naquele momento, eu precisava de palavras gentis. E diante da arrogância e intolerância daquela fisioterapeuta, toda minha raiva acumulada durante a internação, diante de tantas palavras frias e duras dirigidas a mim, ao meu marido, diante do descaso com a condição de minha princesinha, tudo explodiu! Tive vontade de pular no pescoço daquela mulher, não podia vê-la no corredor, cuidando dos bebês, conversando com algum membro da equipe. O pior de tudo era que aquela mulher era uma espécie de manda-chuva da UTI, acostumada a mandar e ser obedecida. Não estava acostumada a ouvir e nem reconhecer a importância da família na recuperação da criança, nem reconhecer que, ás vezes, a mãe tem toda razão!

Um dia estava sentada no corredor, ao lado de meu marido, e vi-a passando toda apressada.Então lembrei-me de duas coisas. Lembrei-me de uma amiga que também foi mãe de home care e tinha o dom de acolher todas as pessoas com palavras gentis, com alegria sincera e com muita generosidade no coração. Ela conseguia dobrar todas as pessoas só com essas qualidades, mesmo o coração mais empedernido, mesmo a disposição mais contrária ás suas vontades. Eu admirava muito esse jeito dela. 

E lembrei-me de uma história que li no livro "Sobre a Morte e o Morrer" da Elizabeth Kubler-Ross: havia um médico muito frio e arrogante no hospital onde ela trabalhava e ninguém gostava dele, nem pacientes, nem funcionários. Somente uma enfermeira tinha pena dele, porque achava que ele sofria muito, mas não sabia dizer porque. Decidiram que essa enfermeira teria que abordá-lo e conversar com ele. Com muito medo, ela foi. Ao tocá-lo no ombro e perguntar se estava tudo bem com ele, a enfermeira assustou-se com a reação imediata dele. Ele agarrou-a pelo braço e levou-a para o consultório e lá ele chorou e desabafou. Não aguentava mais tratar dos pacientes com câncer e vê-los todos morrer, mesmo diante de todos seus esforços para que vivessem. Sentia-se um fracassado, havia estudado medicina para salvar vidas e só havia morte ao lado dele... Depois desse desabafo, todos compreenderam a dor do médico e seu jeito bravo e ele mesmo melhorou sua disposição ao ouvir as palavras de incentivo da enfermeira.

Foram a gentileza e o acolhimento que mudaram a situação. E pensei: eu também não fui gentil com a fisioterapeuta, dedicando-lhe tanto ódio, sem nem mesmo compreender a natureza de seus atos. E ouvi uma voz no meu ouvido:

-Tente de novo!

Levantei-me e aproximei-me dela que andava muito apressada entre a turma de mães que tentavam entrar no berçário e UTI. Toquei-a de leve e disse, tentando apagar toda a raiva que ela me inspirava e rebuscando dentro de mim toda a gentileza que poderia oferecer :

-Oi! Acho que a gente começou de maneira errada, então eu queria recomeçar de novo com você. Meu nome é Tania, sou a mãe da Raquel e também tenho outro filho em casa com a mesma doença dela. Sei que você estava preocupada porque eu não estava vestindo o avental naquele dia, mas conheço outras UTI´s em que não se usa aventais e só preciso lavar as mãos. Não sou completamente leiga, conheço a doença de minha filha e os cuidados que ela necessita.

Qual não foi minha surpresa quando ela sorriu! Num passe de mágica, sua disposição comigo mudou da água para o vinho! Chegou a pedir-me desculpas pelo modo como havia falado! Na verdade, ela foi a maior incentivadora para que eu levasse a Raquel para casa e esteve do meu lado quando a pediatra-chefe ficou reticente quanto a assinar a alta porque achava que eu não teria condições de cuidar da Raquel em casa. Desde aquele dia, ela foi minha aliada.

Algumas palavras gentis haviam mudado tudo.

Sei que essa vida de home care, de UTI, não é fácil para nenhum dos lados. Nem o nosso, dos pais, nem o dos funcionários. Como aquele médico disse, há muita dor, muita perda, muito sofrimento. Ás vezes, ficamos endurecidos, insensíveis, apenas para nos proteger porque não aguentamos mais sofrer. No fundo, todos precisam de palavras gentis e de acolhimento.

Ás vezes, ficamos esperando que os outros nos acolham porque sofremos mais que todo mundo e esquecemos que também precisamos dar, para poder receber. Ao ser objeto de raiva, nossa reação imediata é devolvê-la na mesma medida. 

Sempre digo que o momento da doença, da internação, é o momento de maior fragilização do ser humano, quando ele está mais exposto, tanto física, quanto psíquica e espiritualmente. É nesse momento, portanto, quando ele mais precisa do acolhimento e compreensão. Não importa quem essa pessoa foi, o que fez, ou deixou de fazer. Não importa se estamos cansados, se estamos cheios de problemas: aquele ser humano diante de nós está fragilizado e completamente exposto, todas suas fraquezas estão abertas, sua fé está abalada, sua força está derrubada e ele está cheio de medo. 

Humanização é conseguir compreender isso!







2 comentários:

  1. Sabe é por isso e muito mais que tenho imenso orgulho de tê-la como mãe. Não sei se conseguiria ser como você ou agir como você. Mas te admiro muito e tenho certeza não sou a única!

    ResponderExcluir
  2. Nossa depois que somos mães, tomamos atitudes que antes nem imaginariamos. Ter paciência é uma delas. Persistência, Perseverança entre outras.

    ResponderExcluir