terça-feira, 29 de março de 2011

Tinha uma pedra no meio do caminho


Todo mundo passa por tristezas e perdas na vida, mas quem vive com home care, vivencia intensamente e, ás vezes diariamente, constantes perdas.

Nós procuramos o controle em nossa vida para termos um pouco de segurança, mas quando vivemos com home care, por mais que nos esforcemos, percebemos que não controlamos mais nada...

Um dia seu filho está bem e no outro não está, num dia você tem uma equipe completa de técnicas de enfermagem em quem você confia e na outra semana talvez já não tenha mais, num dia seu filho está em casa e no outro está internado, num dia ele teve avanços no tratamento e no outro, devido à uma infecção, à uma convulsão, ele perde tudo o que havia conquistado, num dia ele não precisa de oxigênio, nem aparelho de ventilação e no outro ele não consegue manter o padrão respiratório sozinho, num dia a folguista não aparece, o remédio acaba e o home care não repõe, ele precisa de um aparelho, um exame, um especialista e o convênio não quer autorizar e assim sucessivamente centenas de pequenas perdas e tristezas que vão se acumulando...

Para muitos, a perda maior é a perda do sonho de um filho normal. No lugar desse, dão-nos outro que pode ser tão amado quanto o primeiro, o do sonho, mas que nunca vai ser igual aquele... Quantas vezes não nos pegamos imaginando que esse filho real está andando, falando, respirando sozinho, fazendo natação, indo para a escola... Como ele seria se fosse normal? Nós amamos esse filho que acolhemos no coração, mas também estamos eternamente de luto pelo outro que não veio...

Ás vezes, repentinamente, devido à um probleminha bobo, uma palavra mal dita, um filme ou até uma cena de novela, explodimos no choro. Parece que subitamente não conseguimos mais suportar nada, tantas são as perdas; parece que tudo se estende diante de nós, todas as dificuldades, os erros, os fracassos, as brigas, as culpas reais e imaginárias e sucumbimos à esse peso.

Então é o momento de parar, descansar e chorar.

Não é o fim. É só uma parada e a gente precisa dela para continuar a caminhada.

Drummond disse que "tinha uma pedra no meio do caminho". No nosso caminho, tem um montão de pedras, mas nem por isso ele é menos bonito do que os outros.

2 comentários:

  1. E não são pedras pequenas! Mas acredito, que apesar de toda dor, dificuldade e revolta, nós temos força para passar por isso, mesmo que seja caindo e tropeçando recebemos a missão de acompanhar nossos familiares por essa jornada e ela é só nossa, ninguém poderia fazer por nós e nem igual a nós. Talvez não seja o que desejamos, mas tem uma beleza muito grande também. E quando precisar descansar de tudo que está passando é só dar um grito que estou aqui!

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  2. Tânia, escreveu tudo e um pouco mais, pois têm muito nesse texto que nem lembrava mais como era. Acho que apesar das pedras, o mais importante é lutar por quem amamos. E nesse momento não podemos deixar a culpa entrar, inclusive temos que aprender a nos perdoar, pois nesse mundo de home care, a responsabilidade pela vida de nossos entes queridos é dividida com outras pessoas, algumas confiamos muito, outras... o mais importante é o amor que podemos dar e agradecer todos os dias por essa oportunidade de crescer, amar e ser amado.

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