sábado, 26 de março de 2011

Um lugar para pertencer



É engraçado como as experiências pelas quais passamos nos modificam inteiramente. Seja o que for que se tenha passado e como isso pode nos deixar deslocado em relação às outras pessoas.

Conviver com meus irmãos no Home Care foi uma dessas coisas. Não havia com quem conversar, pois meus amigos não poderiam entender o que era passar por momentos de sufoco em que eu não sabia se o Pedro voltaria, ou então quando eu tive de correr com a Raquel no colo para colocá-la no oxigênio, pois ela já estava ficando roxa. Por mais que se conte o que se passou outras pessoas só poderiam entender se tivessem passado pela mesma coisa, do contrário não há como se entender.

Da mesma forma que só fui entender como é doloroso se perder alguém quando eu perdi meu irmão, antes disso eu sequer podia imaginar e não conseguia entender como as pessoas podiam ficar tanto tempo sofrendo pela perda de um ente querido, hoje eu sei que a perda fica para sempre assim como a saudade.

Dessa forma sinto que a caminhada de quem tem alguém em Home Care é bem solitária, seja essa pessoa um pai, uma mãe, irmão ou neto, não há com quem conversar além daqueles que estão passando pela mesma situação que você, mas a verdade é que ansiamos por mais alguém. Alguém de fora que possa nos ouvir e compreender o que passamos e começamos a buscar alguém assim.

Nossos familiares nos entendem, mas muitas vezes não conseguimos falar com eles, pois são próximos demais, estão sofrendo também e não conseguimos trazer mais dor a eles, temos receio de incomodar. E assim guardamos tudo o que passamos dentro de nós a fim de que um dia seja possível compartilhar tudo isso com alguém, alguém que vai ouvir e te consolar, e vai compreender o que foi dito.

Talvez isso seja pedir demais. Se nem nós conseguimos compreender tudo como podemos pedir para que alguém compreenda completamente nossas dores e nos acolha. Talvez devêssemos ficar felizes com aqueles que, sem compreender, nos acolhem e nos apóiam em nossos momentos de dor. Mas às vezes só isso não basta.

É nesse momento que penso que talvez aqui haja pessoas que compreendam o que passo e passei, já que passaram por situações parecidas, e assim não irão estranhar o que digo. Assim poderei abrir meu coração sem receios e me sentirei melhor depois de tudo por finalmente ter compartilhado aquilo que me afligia.

5 comentários:

  1. Acho que só o fato de você poder desabafar, já se opera uma mudança dentro de você, mesmo que o outro não tenha compreendido... Mas é lógico que é melhor quando o outro compreende e o acolhe! Ter um lugar para se pertender, nos braços de alguém que te entende! É uma bonita imagem e se você não encontrar ninguém para te compreender por aí, pode correr para meu abraço!!!!!

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  2. Pode deixar que com certeza vou acabar correndo para o seu abraço!

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  3. Querida Sofia, o que vc passou é somente seu, o que passei é somente meu, como o que sua mãe passou é somente dela e assim sucessivamente, porém quando abrimos nosso coração uma transformação acontece: nos vemos naquela pessoa e naquela situação. Mesmo quem nunca passou por tudo isso, também se imagina nessa situação de alguma forma, portanto, você a partir desse momento não está sozinha, e o melhor de tudo, você com suas palavras transforma a vida dessas pessoas, e também traz um certo alento... pois pensamos que não somos únicos nessas condições. Devemos tirar a lição de tudo o que vivemos, e principalmente ajudar quem precisa. Parabéns pelo relato. Bjs.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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